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Temas Científicos

Arbovirose

Os arbovírus compreendem um grupo ecológico de mais de 500 vírus distintos, cuja inegável plasticidade genética permite que sejam transmitidos entre hospedeiros vertebrados por uma variedade de artrópodes hematófagos que lhes servem de vetores. Nas últimas décadas tem-se assistido à dispersão geográfica de alguns destes vírus (ex: Dengue e Chikungunya), emergindo estes em locais sem registo anterior da sua atividade, e/ou reemergindo onde anteriormente tinham sido controlados ou eliminados. Com a dispersão global dos seus vetores, e a imparável mobilidade de hospedeiros potencialmente infetados, surge a possibilidade de ocorrência de surtos inesperados. Estes justificam discussões sobre a necessidade de manutenção de sistemas de vigilância e a implementação de medidas que permitam mitigar a transmissão viral, bem como o desenvolvimento de métodos de diagnóstico e rastreio sensíveis, específicos e economicamente acessíveis, para além de novas vacinas e terapêuticas.

Doença do Sono

A Doença do sono, ou Tripanossomose humana Africana, é uma doença negligenciada exclusiva do continente africano. O seu agente etiológico é um tripanossoma, Tripanossoma brucei gambiense ou T. brucei rhodesiense, transmitido pela picada de uma mosca do género Glossina, vulgarmente conhecida como mosca tsé-tsé. A doença afeta principalmente as populações de regiões rurais da África Central e Ocidental e tem uma distribuição focal, correspondente às áreas de glossinas. É fatal, se não tratada.
Nesta mesa redonda irão ser discutidos alguns dos pontos mais importantes para o controlo da Doença do sono. Teremos a análise da obra da OMS nos últimos anos, feita pelo seu diretor, Dr. Pere Simarro, a situação da doença num país de expressão portuguesa, Angola, através do diretor do Instituto de Combate e Controlo das Tripanossomíases, Prof. Josenando Théophile, as perspetivas atuais sobre os mecanismos fisiopatológicos e clínicos da doença, pelo Prof. Jorge Seixas, e a análise antropológica e sociológica dos processos e estratégias de luta contra a Doença do Sono em Angola, pelo Prof. Jorge Varanda.

Doenças transmitidas por carraças

As doenças transmitidas por carraças (DTCs), há muito conhecidas mas usualmente subvalorizadas, são cada vez mais reconhecidas como importantes ameaças em termos de saúde pública e animal. Apesar do seu impacto económico ser mais sentido na área da produção animal, a influência na saúde pública não pode ser esquecida. As DTCs são um crescente e grave problema na Europa, sendo também responsáveis por grandes limitações na produção de gado na África subsaariana, América Latina e Ásia. Na Europa, a Borreliose de Lyme, causada pela bactéria Borrelia burgdorferi, transmitida por carraças do género Ixodes, é a DTC mais comum enquanto a linfadenopatia (TIBOLA) provocada por Rickettsia slovaka, transmitida por Dermacentor sp, e a encefalite viral transmitida maioritariamente por Ixodes ricinus são outras doenças humanas de ocorrência crescente. As interações entre agentes etiológicos, vetores e hospedeiros vertebrados estão em constante alteração, dando origem à emergência ou reemergência de doenças infeciosas zoonóticas. Assim, o estudo da biologia dos vetores, dos agentes etiológicos, bem como das suas interações é fundamental não só para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção/controle, mas também para avaliação de riscos.

Doenças transmitidas por vetores na Europa

As doenças transmitidas por vetores (VBD) estão ligadas aos vetores invertebrados hematófagos tais como mosquitos, carraças ou flebotomíneos na transmissão de agentes patogénicos de um hospedeiro a outro. Estas infeções, comumente fixadas em regiões tropicais e subtropicais, estão em expansão estimando-se até 17% da taxa global das doenças infeciosas. A mais mortal de todas, a malária, foi estimada como sendo a causa de mais de 600.000 mortes em 2012, a doença com um crescimento mais rápido é o dengue, estimando-se que possam ocorrer cerca de 390 milhões de infeções com potenciais 96 milhões casos patentes. A abordagem dos mecanismos básicos pelos quais os artrópodes vetores transmitem os agentes patogénicos, a biologia dos vetores, os desafios associados com o desenvolvimento de novos tratamentos, os testes de diagnóstico e vacinas, o impacto das VBD na Saúde humana e veterinária serão tratados durante este Congresso.

Filariose

A eliminação das filarioses linfáticas e da oncocercose até 2020 é uma das metas preconizadas pela Assembleia Mundial da Saúde, OMS em 1995. Estas doenças parasitárias continuam a ser uma das maiores causas de incapacidades físicas permanentes ou de longo prazo nas regiões endémicas de África, Ásia e América Latina. Neste painel, serão discutidas as estratégias de controlo implementadas e os progressos alcançados na redução destas endemias, particularmente no Brasil, Angola e Moçambique. Será ainda proposta a abordagem integrada One Health face à emergência global das filarioses zoonóticas.

Leishmaniose
A leishmaniose causada pelo parasita intracelular Leishmania é uma doença negligenciada endémica em 98 países com uma prevalência global de 12 milhões e 500.000 novos casos de leishmaniose visceral e 1 a 1,5 milhões de leishmaniose cutânea, por ano. Várias espécies flebotomínicas em diferentes áreas geográficas estão envolvidas na transmissão. A imunidade protetora da infeção por Leishmania depende fortemente de uma resposta dos linfócitos T que destroem as células infetadas diretamente ou ativando a fagocitose. Contundo, estes parasitas têm determinantes responsáveis pela sua sobrevivência levando ao desenvolvimento da doença. A taxa de transmissão é baixa o que faz estes parasitas montarem estratégias para diminuir a resposta celular do hospedeiro vertebrado e aumentar a disponibilidade temporal para a transmissão. 
Malária

A nível mundial, 3,2 bilhões de pessoas correm o risco de ser infetadas com malária, na sua grande maioria na África Subsaariana e, em 2013, a malária foi responsável por um número estimado de 584 000 mortes. Apesar do peso da doença a nível mundial, o número de pessoas que morrem de malária tem caído drasticamente desde 2000. Esta nova realidade que advém do sucesso do controlo impõe novos desafios exigindo atualização de estratégias e ferramentas eficazes para o controlo global e eliminação da malária.

Nanotecnologia no diagnóstico e prevenção de doenças transmitidas por vetores 

Os recentes surtos epidémicos de doenças transmitidas por vetores na Europa do Sul têm demonstrado a importância da aplicação de medidas mais eficazes de controlo e prevenção em regiões e países onde tal não era habitual até há pouco tempo. O desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico e prevenção de doenças transmitidas por vetores é essencial. Os métodos que associam a biologia molecular e celular à nanobiotecnologia têm propiciado o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico e de prevenção altamente eficazes com resultados fiáveis em poucas horas. Os novos ensaios imunocromatográficos, a nanotecnologia e a tecnologia de microarranjos de DNA e a análise do proteoma constituem exemplos de grandes avanços nas novas tecnologias de diagnóstico e prevenção que vão ser abordadas nesta sessão. Alguns destes métodos estão hoje na base do  desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico que auxiliam a investigação epidemiológica e em campanhas de controlo de vetores com vista à melhoria na qualidade de vida da população.